Curiosidades

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Curiosidades


Assunto: Uma teoria do lixo
País: Brasil
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/429/
Data: 4/2009
Enviado por: Rodrigo Imbelloni
Curiosidade (texto):
Escrito por Gabriel Periss 06-Jun-2007 Li certa vez engraada crnica de Luis Fernando Verissimo em que uma mulher e um homem, moradores solitrios no mesmo andar de um prdio, encontram-se pela primeira vez no momento de jogar o lixo fora. E medida que vo conversando, descobrem que j se conheciam bastante, pois ambos, anteriormente, viviam analisando o lixo um do outro. Lixo, diz o cronista, coletivo, domnio pblico, mas no lixo permanecem, como restos significativos, sinais de nossa vida particular: um telegrama amassado (ms notcias, ou boas), pontas de cigarro (nervosismo), lenos de papel (tristeza... ou resfriado), poemas rasgados (frustrao, perfeccionismo...), cascas de camaro (habilidade culinria)... Bem interpretados, esses restos configuram o nosso estado de alma, nossos problemas, nossas esperanas. Uma teoria do lixo ajuda-nos a olhar com curiosidade e at com solene admirao o refugo, o entulho, os resduos, os cacos, os farrapos, tudo aquilo que sobrou, sujou, quebrou, morreu. Mas no lixo ganha nova consistncia. O contexto do lixo. O lixo exalando sopro de vida. No lixo esto os nossos detritos, resultado de atritos, experincias. Esto as nossas fantasias superadas (talvez...), os nossos melhores momentos no teatro do mundo, o descartvel que j foi to importante, embalagens que trouxeram sonhos, sabores saboreados, texturas testadas, aromas transformados em cheiro de lixo. Diga-me de que feito seu lixo e lhe direi quem voc . Ou quem voc no quer mais ser. Partes importantes de sua alma voc transformou em lixo. Voc classificou como odioso lixo coisas que um dia voc chamou de luxo. Leia o lixo prprio e alheio. Jornais de ontem que nem foram devidamente folheados, caixas de eletrodomsticos, comida desprezada, ex-coisas, ex-idias, ex-projetos, at mesmo livros voc ver no lixo. Algumas pessoas gostariam de transformar outras pessoas em lixo eterno. Do lixo, estranhos olhos nos olham. O lixo no quer morrer. Pede clemncia. Pede ajuda. Pede uma nova chance. No grite abaixo o lixo. O lixo esconde tesouros, arte, histrias. Certa vez encontrei no lixo um crucifixo, o Cristo querendo ressuscitar. No lixo do escritor encontrei sufixos e prefixos abandonados. Trouxe-os para a minha casa e os acomodei nos meus textos. Por vezes ouo algum dizer... hoje estou um lixo. O lixo emocional acumulado dentro de ns. O lixo inconsciente que depositaram em ns. O lixo que ns mesmos escondemos debaixo do tapete da nossa conscincia. Gabriel Periss doutor em Educao pela USP e escritor. Web Site: http://www.perisse.com.br