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Assunto: Trocando Recursos Naturais Por Lixo
País: Brasil
Fonte: http://www.artigonal.com/meio-ambiente-artigos/trocando-recursos-naturais-por-lixo-917426.html
Data: 8/2010
Enviado por: Rodrigo Imbelloni
Curiosidade (texto):
O conceito que hoje temos de classe mdia um amlgama de vises construdas ao longo dos ltimos sculos; algumas por demais preconceituosas a viso europia particularmente estigmatizada, assim como a brasileira e algumas por demais romnticas (vide o american way of life). Recentemente, estudos deram conta de que, na Gr-Bretanha, os cidados apresentam forte resistncia a se classificarem como parte da classe mdia, preferindo o termo working class, ou classe trabalhadora. Enquanto isso, os americanos em geral orgulham-se de sua origem essencialmente burguesa e no fogem da categoria. A verdade que, independentemente da maneira como encaramos o rtulo, a maior parte de ns est circunscrita dentro dele. Segundo a pesquisa "A Nova Classe Mdia", dirigida pelo economista Marcelo Nri (FGV), a quantidade de famlias que podem ser encaixadas na classe mdia (tomando como parmetro uma renda mensal de R$ 1.064 a R$ 4.591), subiu de 42,26% para 51,89% entre 2004 e 2008. Se considerarmos que o pesquisador coloca como pertencentes s classes A e B qualquer famlia com renda acima de R$ 4.591, at mesmo possvel questionar a possibilidade de essa percentagem ser ainda maior. Essa ascenso no aconteceu, naturalmente, do dia para a noite. o resultado de um longo processo no qual modificaram-se as relaes sociais, comerciais, polticas, de trabalho e at mesmo religiosas. Desde o incio da Era Moderna, assistimos a um crescimento rompante deste homem do meio, que vive de vender sua fora de trabalho nas cidades e participa da vida econmica no mais apenas como patro ou empregado, mas tambm como consumidor, como agente transformador na ordem estabelecida. O petrleo foi para a histria da classe mdia um divisor de guas, pois atravs da eficincia energtica a Revoluo Industrial atingiu propores que at ento permaneciam alm de qualquer expectativa. Foi este o primeiro momento da histria em que a demanda virtualmente deixou de existir, ocasionando uma queda vertiginosa nos preos e a necessidade de impulsionar uma classe consumidora. Assim, o antes restrito grupo de burgueses o qual j constitua a classe consumidora das cidades passou a ter a seu lado a companhia da classe operria. O direito trabalhista, que antes funcionava para manter a ordem, passou a trabalhar no sentido de construir esta nova classe. Consolidaram-se as frias, o horrio de almoo, os salrios adicionais. A classe mdia, assim, tornava-se de fato o centro da sociedade, e com ela nascia verdadeiramente o consumo. O incio do sculo XX conheceu a primeira grande febre de consumo. O Ford-T, primeiro automvel produzido em massa, tornou-se sucesso absoluto nos EUA ao vender entre 1908 e 1927 mais de 15 milhes de unidades. A classe mdia vislumbrava pela primeira vez o sonho de uma vida completamente nova; parecia possvel trabalhar e viver bem, era tudo uma questo de conseguir aparelhos que economizassem o tempo. Foi a poca da eficincia tcnica, mas na qual ainda se cultivava a velha cultura de conservao, fruto de uma histria de guerras e privaes que a nova classe "dominante" no poderia esquecer. Essa cultura, disso sabemos muito bem, veio a ruir atravs do sculo XX, com a massificao cada vez mais intensa de todos os aspectos da vida humana (at mesmo as artes foram massificadas). Tecnologia de ponta, praticidade e facilidade de aquisio passaram a ser as expresses de ordem. Como a tecnologia evolui a cada instante, a durabilidade tornou-se uma questo menor, assim como a prpria capacidade do produto de exercer suas funes. Se uma geladeira tem uma televiso embutida, j no se espera que ela gele to bem. Se um celular tem cmera e emite os mais variados sons e luzes, talvez nem mesmo seja necessrio que ele tenha excelente recepo ou elevada durabilidade (a prova d‘gua ou resistente a choques). O sonho de consumo do homem contemporneo consumir. J no importa mais o que ou at mesmo por qu. Na ndia, o recm-lanado carro de 2 mil dlares levar as camadas mais baixas da populao a um verdadeiro delrio, aliviando o governo da sua obrigao de garantir um sistema eficiente de transporte pblico. O povo, assim que puder, substituir suas bicicletas e motocicletas sem pensar duas vezes, assim como no pensaro duas vezes tambm no momento de comprar um novo exemplar (talvez de uma nova cor) assim que o primeiro perder suas calotas, para-choques e outras peas coladas. O fenmeno que j tomou forma no Japo e Nova York, de aparelhos semi-novos que so abandonados ao ar-livre, j comea a se alastrar pelo terceiro mundo. O ciclo do produto j no o de sua durabilidade fsica e qualidade mas sim de permanente inovao e substituio. O preo deste desejo, desta febre de consumo que atinge s classes mdias, est sendo pago no dia-a-dia. Vive-se cada vez mais e tm-se cada vez mais; por outro lado, vive-se cada vez pior e com posses cada vez mais abstratas. O resultado desta equao lixo, poluio e violncia. O homem contemporneo coloca seus padres inventados de vida acima de seu vasto habitat, e o ciclo de seu lixo em competio com o ciclo da natureza, no entanto no capaz de perceber que esta batalha est sendo perdida na medida em que estamos trocando recursos naturais por lixo. Quanto ao planeta sabemos que ele se renovar quando for necessrio; quanto humanidade, no temos tanta certeza.