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Assunto: A energia do lixo
País: Brasil
Fonte: http://www.oeco.com.br/reportagens/2170-oeco25960
Data: 11/2010
Enviado por: Rodrigo Imbelloni
Curiosidade (texto):
Lixo um assunto desagradvel, seja pelos problemas ambientais inerentes ou pelo enorme impasse que os municpios brasileiros, principalmente os grandes centros urbanos, enfrentam ao tratarem da disposio final de seus resduos. Em So Paulo, no entanto, o governo municipal colocou em debate a questo ao inaugurar, nos ltimos dias de janeiro, o que talvez venha a ser uma soluo para os danos causados pelo lixo: a termoeltrica a biogs do Aterro So Joo. O biogs aquele formado nos aterros sanitrios pela decomposio da matria orgnica armazenada. Sua composio varia com o tipo de material existente, mas o gs metano (CH4) e o dixido de carbono (CO2) so seus principais constituintes. Segundo o engenheiro mecnico Adriano Viana Ensinas, que em 2003 realizou um estudo sobre a gerao de biogs no aterro sanitrio Delta, em Campinas, a porcentagem mdia de metano e CO2 no gs de 50%, cada. Em quantidades bem menores, ainda aparecem enxofre, monxido de carbono, amnia, hidrognio, nitrognio e oxignio. Com tantos constituintes txicos, fcil imaginar o problema que o biogs representa nos aterros. O uso de aterros sanitrios, embora seja a alternativa mais vivel de armazenamento e tratamento do lixo no Brasil devido, principalmente, ao seu baixo custo, facilidade de execuo e grande capacidade de absoro de resduos apontado como uma das maiores fontes de metano liberado na atmosfera, contribuindo em grande medida para o agravamento do efeito estufa. Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), os aterros so responsveis por cerca de 5% a 20% do total de metano liberado por fontes com origem em atividades humanas. Alm dos danos causados pelo agravamento do efeito estufa, lembra Ensinas, o biogs gerado pelos aterros e "lixes" pode representar riscos para o ambiente local quando no controlado devidamente. Nestas situaes, ele pode migrar lateralmente para as reas mais prximas ou mesmo emanar pela superfcie, causando prejuzos sade humana e vegetao, decorrentes da formao de oznio de baixa altitude, ou exposio de constituintes do biogs que podem causar cncer e outras doenas que atacam fgado, rins, pulmes e o sistema nervoso central. Isso tudo sem falar em seu forte cheiro, o que, segundo o engenheiro mecnico, pode causar distrbios emocionais. O lado bom dessa histria, que o metano pode ser coletado e utilizado como fonte de energia, justamente a tcnica usada nas usinas termoeltricas instaladas em aterros. Nesses locais, o biogs pode ser usado para gerao de calor, trabalho mecnico e eletricidade. O seu uso direto pode servir para abastecimento de uma rede local de gs canalizado ou para aplicaes especficas em processos industriais, servindo como substituto de derivados do petrleo. Usinas paulistanas Assim como em outros projetos do Brasil, a instalao de usinas em aterros de So Paulo levou em conta o grande potencial de gerao de biogs nos locais. O que, trocando em midos, significa a enorme quantidade de lixo armazenada. Todos os dias, os paulistanos produzem nada menos do que 13 mil toneladas de lixo, aproximadamente. Todo esse material foi enviado, durante dcadas, para os dois principais aterros da cidade: o Bandeirantes, que funcionou por 28 anos na zona oeste; e o So Joo, que funcionou por 15 anos na zona leste. Ambos chegaram sua capacidade mxima em 2007 e ganharam usinas em seus ltimos anos de funcionamento. Com uma rea de 150 hectares e cerca de 35 milhes de toneladas de lixo estocada, o Aterro Bandeirantes foi o primeiro a ter uma usina. Instalada em 2003, a termoeltrica tem capacidade de gerao de 170 mil MW/h por ano. L, esto alojados 60 canudos verticais que penetram o aterro e captam os gases. O material escoado por 35 km de tubulaes at a estao de beneficiamento, onde so comprimidos e conduzidos a moto-geradores, para, ento, ser feita a queima do metano. A combusto permite a transformao da energia mecnica em eltrica, que diretamente transferida para a rede de distribuio da Eletropaulo. A produo do Bandeirantes j abastece prdios administrativos do Unibanco e tambm comercializada no mercado livre. No aterro So Joo, o processo de implantao da Usina de Biogs inaugurada oficialmente dia 25 de janeiro deste ano - comeou em junho de 2007, com o incio da operao de descontaminao do metano. Em seus 80 hectares e cerca de 26 milhes de toneladas de lixo estocadas, foram instalados mais de 30 km de tubulaes especiais para a coleta do gs e construdos 126 poos conectados. A capacidade da usina de 200 mil MW/h por ano, o equivalente ao consumo de uma cidade de 400 mil habitantes. Tanto a Unidade de Gerao de Energia de Bandeirantes quanto a de So Joo esto entre os cinco maiores projetos do mundo de controle de gases que causam o efeito estufa a partir do reaproveitamento do lixo. Aprovados pela ONU como Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) e dentro das normas do Protocolo de Quioto, os aterros podem, com isso, vender seus crditos de carbono aos pases desenvolvidos que tm metas de reduo de emisso de gases-estufa. Segundo a Biogs Energia Ambiental, a concessionria contratada pela prefeitura para fazer a captao de gs, s o projeto no aterro Bandeirantes j deixou de emitir 2 milhes de toneladas de CO2 equivalente. De acordo com o diretor de desenvolvimento de uma das acionrias da Biogs, Manoel Antonio Avelino, at 2012, o Bandeirantes deixar de emitir 8 milhes de toneladas de CO2 equivalente. No aterro So Joo, a expectativa de gerao de crditos de carbono de 800 mil toneladas por ano, volume bem prximo ao que foi negociado no primeiro leilo de crditos de carbono da Bolsa de Mercadorias & Futuros, realizado no final de setembro de 2007. Contestaes Apesar de, primeira vista, se apresentar como uma boa sada para o problema do lixo, a instalao de usinas de biogs nos aterros sanitrios do Brasil vista com ressalvas por pesquisadores. Para o professor Waldir Antnio Bizzo, doutor em engenharia mecnica e orientador de Adriano Ensinas em sua dissertao de mestrado, a medida no pode ser encarada como nica soluo. Segundo ele, as questes relacionadas produo de resduos slidos tm de ser tratadas com radicalidade. "A nica coisa que ela faz [a usina] evitar a emisso de gs de efeito estufa. O melhor mesmo seria no se produzir lixo, mas, como no conseguimos no produzir, que seja produzido pouco, que se recicle o mximo", diz. Vale lembrar que, em So Paulo, apenas cerca de 1% do lixo reciclado, sendo que a cidade teria potencial para reaproveitar cerca de 35% de seus resduos slidos. Diante deste cenrio, o professor reafirma suas convices. "Em um sistema civilizado, a porcentagem de reciclados muito maior. No Japo, por exemplo, existem de 10 a 15 tipos de coletas. O aterro e a usina acabam sendo, para um pas pobre como o nosso, a opo menos ruim", defende. Quem tambm no v com bons olhos a propaganda positiva que se fez em torno da instalao das usinas na capital paulista o presidente da Comisso Especial de Estudos do Lixo de So Paulo, vereador Paulo Frange (PTB). Segundo ele h uma srie de irregularidades por trs das iniciativas. Entre elas esto a existncia de Licena Ambiental Precria nos aterros e a contaminao de vrios dos poos abertos nas usinas. "A idia [da usina] inteligente, mas no detemos toda a tcnica com segurana. medida que se extrai o gs, vai causando uma instabilidade no terreno e podem ocorrer desabamentos", diz o vereador, em referncia ao desabamento ocorrido no aterro So Joo em agosto passado. Segundo ele, as cinco estaes de transbordo da cidade tambm operam irregularmente, pois no possuem o inventrio epidemiolgico da rea. Procurada pela reportagem de O Eco, a assessoria da prefeitura negou todas as acusaes e afirmou que os ataques do vereador Frange fazem parte de sua propaganda para tentar a reeleio no pleito deste ano. Discusses polticas parte, as termoeltricas alimentadas por metano parecem ser uma boa alternativa - ou a "menos ruim" - para os aterros. Enquanto o Brasil no acordar para a importncia da reciclagem e para a produo controlada de seu lixo, a instalao de usinas movidas a gases de efeito-estufa continuar a ser a notcia menos desagradvel a ser dada quando o tema do lixo estiver em pauta.