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Curiosidades


Assunto: O caos e a ordem: as faces do colecionismo patolgico
País: Brasil
Fonte: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/colecionismo.htm
Data: 1/2013
Enviado por: Rodrigo Imbelloni
URL: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/colecionismo.htm
Curiosidade (texto):
por Regina Wielenska Poderia comentar sobre aqueles que no planejam suas rotinas e se perdem em meio aos deveres e compromissos, sofrem com atrasos e tarefas acumuladas. H tambm pessoas que so atrapalhadas em aspectos mais abstratos e com repercusses indesejveis na vida prtica, em aspectos no necessariamente ligados ao gerenciamento do tempo (por exemplo, na maneira como organizam e expressam suas ideias, ou quando lidam com suas finanas). Assistir um trecho do programa da apresentadora americana Oprah Winfrey sinalizou para mim outra possibilidade, quero comentar sobre o colecionismo patolgico, um quadro psiquitrico ainda negligenciado por profissionais de sade, e pouco conhecido da populao em geral. Refere-se a um padro comportamental caracterizado pelo acmulo de quantidades excessivas de itens com questionvel valor utilitrio ou material, associado intensa dificuldade para fazer o descarte desses mesmos objetos, resultando ao longo do tempo, em prejuzo da qualidade de vida do indivduo. Colecionar pode ser um hobby. Alm do propsito de ampliar a coleo (selos, bonecas de poca, canetas, aeromodelos, latas de batata frita industrializada ou de cerveja, etc.), colecionadores interagem entre si, buscam aprender mais sobre seu objeto de interesse, sentem-se orgulho de seus pertences e sentem prazer ao exibi-los a quem saiba apreci-los. Neste caso, nada h de prejudicial, que preocupe especialistas em problemas de comportamento. No entanto, h quem acumule descontroladamente, sem critrio e organizao, coisas como papis (comprovantes bancrios de dcadas, notas fiscais jurssicas, papeizinhos para anotaes, recortes de revistas), roupas imprestveis, latas, potes de vidro, pedaos de barbante, jornais velhos, a lista interminvel. Descartar, por sua vez, um verbo impossvel de ser conjugado. O argumento bsico de quem age assim que aquilo "pode vir a ser necessrio, sabe-se Deus quando" e a a pessoa estar preparada para a ocasio. O problema : quem conseguiria achar aquele parafuso especfico, guardado em meio a muitas pilhas de outras coisas, num cmodo quase intransitvel? H poucos anos, na cidade de So Paulo, os vizinhos de uma senhora, residente no bairro do Itaim Bibi, precisaram chamar as autoridades sanitrias. O odor que emanava da casa era insuportvel; aranhas, escorpies e baratas formaram ali um condomnio. Em meio a pilhas infectas e amontoados desordenados, encontraram at um automvel. Esse um caso extremo, explorado pela mdia na poca. A desocupao foi feita fora, sob ordem judicial, e a pobre senhora, encaminhada - contra sua vontade - para cuidados de sade. Os portadores, em sua maioria, costumam manter alguma viso crtica sobre sua condio. Embora convictos de que acumular tantas coisas seja lgico e razovel (recomendo aos familiares que nunca tentem contra-argumentar, porque sero derrotados). Usualmente dizem que chegar o dia em que conseguiro se organizar, compraro mais prateleiras, containeres, tero uma casa maior, faro uma superarrumao e a todos vero que a pessoa estava certa em guardar tudo aquilo. Sob a crena de que apenas precisam ter chance de arrumar tudo melhor, passam anos sem receber visitas, devido ao constrangimento produzido pelo escrutnio alheio. Cmodos ficam intransitveis, at a cama pode ter sua rea livre reduzida. Falta espao para sentar, fazer refeies, praticar hobbies, receber visitas e hspedes, dar festas, para viver. H casos, menos frequentes, de colecionismo de animais. A pessoa vive em meio a ces e gatos, geralmente coletados da rua, em plena imundcie e ausncia de cuidados como alimentao apropriada, limpeza, vacinao e outras prticas de quem se preocupa com a guarda responsvel. doloroso constatar quer esse comportamento no surge em sua exuberncia mxima da noite para o dia. trabalho de formiga. Por anos a fio, as coisa se processam disfaradamente, em alguns casos com a cumplicidade, ativa ou passiva, de algum membro da famlia. Examinando a histria pessoal e familiar, comum identificar casos de depresso, Transtorno Obsessivo Compulsivo, compulso por compras, entre outros transtornos. Tambm chama a ateno que a vida dessas pessoas costuma ser empobrecida do ponto de vista psicolgico, seja como decorrncia de perdas, negligncia parental, abusos, dficits em habilidades de comunicao (inassertividade, dificuldade na expresso de necessidades e de sentimentos em geral) e /ou sociais. Tratamento H tratamento? Sim. Quase nunca a soluo simples, isenta de embates, conflitos, hesitao e recadas. O apoio de especialistas e a orientao da famlia so fundamentais. O argumento bsico, a ser usado com o portador, no passa pela nfase na insensatez de armazenar tanto lixo. Na verdade, buscamos discutir quais os valores bsicos da pessoa: seja propiciar uma vida de qualidade aos que ama, ter espao para convvio, zelar por um ambiente sem p, mofo e insetos, para assegurar a sade de todos, etc.. So criadas estratgias para iniciar o descarte, classificar o que deve ser mantido e o que pode ser vendido, reciclado, doado, ou jogado no lixo sem hesitao. Define-se um limite para o quanto de cada item poder ser mantido na casa, qual rea dever ser preservada para circulao e outros usos que no o armazenamento. O bloqueio do colecionismo um projeto amplo, trabalhoso e vale cada minuto do esforo. To importante quanto reorganizar a vida de fora para dentro, um investimento de longo prazo na terapia, rica oportunidade para identificar o que influenciou e ainda mantm o empobrecimento dos relacionamentos e dos interesses na vida. Intervir sobre essa armadilha essencial. Do contrrio, estaremos desconsiderando a totalidade da pessoa e focando apenas em uma dimenso do indivduo, seu patolgico excesso comportamental. De certo modo, a interveno envolve recriar o ambiente domstico, intervir de forma ampla sobre a qualidade de vida e rever o que realmente faz diferena para a serenidade emocional e vivncia do prazer.